Resumos

Renato Nunes-BittencourtJoaquim Manuel de Macedo e Baruch Spinoza

Joaquim Manuel de Macedo, em A Luneta Mágica, apresenta uma narrativa de cunho filosófico em que se evidencia a relatividade dos valores de Bem e de Mal, que nada mais são do que perspectivas particulares acerca dos acontecimentos de nossa vida. Nesse ponto, a obra apresenta interessante convergência com o pensamento de Baruch Spinoza, que, no advento da Modernidade, já apresentara a ideia de que Bem e Mal são valores relativos e não propriedades naturais das coisas.

Patrick Pessoa Machado de Assis e Schopenhauer

É notório o interesse que a obra de Arthur Schopenhauer despertou em Machado de Assis. A despeito das inegáveis relações que se podem estabelecer entre os autores, o propósito da palestra será o de discutir o problema da autonomia da obra de arte literária face às apropriações filosóficas que tentam reduzi-la à mera ilustração de filosofemas já disseminados e de uso corrente. Neste sentido, em vez de perguntar pelas afinidades entre Machado e Schopenhauer, tentarei chamar a atenção para as suas diferenças, que de algum modo decorrem do abismo que separa essas montanhas muito próximas chamadas Filosofia e Literatura.

Muniz SodréJorge Amado e Marx

A literatura de Jorge Amado não tematiza diretamente o pensamento de Karl Marx, e sim as suas ressonâncias afetivas e políticas intermediadas pelo Partido Comunista e pelos libelos revolucionários. A categoria “povo”, trabalhada por Jorge em seus romances e nos seus pronunciamentos políticos, não é exatamente o mesmo que a classe proletária entronizada por Marx. Jorge Amado pode ser considerado um pensador do povo nacional.

Maria Cristina Franco FerrazOswald de Andrade e Nietzsche

A relação entre a filosofia nietzschiana e a literatura oswaldiana será remetida à paródia, entendida não como mero recurso estilístico mas sobretudo como gesto rico de implicações filosóficas, políticas e culturais. Iremos inicialmente explorar essas implicações a partir de uma frase paródica que emerge explicitamente no parágrafo 19 do livro  Além do bem e do mal: “L’effet c’est moi” [O efeito sou eu]. A radicalidade filosófica e política dessa afirmação irá funcionar como trampolim para a exploração da genialidade paródica de Oswald de Andrade, tradutor/traidor que deglutiu a cultura dominante, curando-a dos falsos dilemas metafísicos do ser e do não ser: “Tupi, or not tupi that is the question”.

Alexandre Marques Cabral – Guimarães Rosa e Heidegger

A proposta é assinalar em que medida a obra de Rosa permite visualizar os problemas da finitude existencial do ser-aí e da finitude do acontecimento do ser (Ereignis) descritos por Heidegger. Apresentaremos conceitos provenientes da analítica existencial de Ser e tempo, além de elementos presentes na segunda fase do pensamento heideggeriano relativos à finitude do acontecimento histórico do ser. Mostraremos como estes elementos assinalam o caráter dramático da existência e como o espaço histórico onde a existência se determina se caracteriza por uma tensão entre o sagrado e o demoníaco. Por meio da tematização de passagens de Grande Sertão: Veredas e de Primeiras estórias, pretendemos mostrar como a questão da dramaticidade da finitude humana e da experiência do demoníaco aparecem em Rosa, servindo de fonte esclarecedora dos operadores conceituais de Heidegger.

Ana Lúcia Oliveira Clarice Lispector e Deleuze: interseções, ressonâncias

A palestra se centrará na discussão dos livros Água viva e Um sopro de vida, experimentações mais radicais de Clarice Lispector quanto à desconstrução dos modelos romanescos tradicionais e à criação de um devir-filosofia do romance. Ao longo da análise da obra lispectoriana, será estabelecido um diálogo com o pensamento de Gilles Deleuze, abordando-se alguns conceitos desdobrados pelo filósofo em sua reflexão sobre a arte e sobre a literatura.

Victor Hugo Adler Nelson Rodrigues e Foucault

Em suas primeiras obras, nos anos 40, Nelson Rodrigues, ao reatualizar a tragédia ática, explora, de modo original, as possibilidades simbólicas do espaço cênico. Em Doroteia, Senhora dos Afogados, e principalmente O Anjo Negro, os espaços confinados e limitados figuram hiperbolicamente o desejo patriarcal de controle absoluto, através do olhar, sobre a eclosão do desejo na família. O arbítrio total dos patriarcas é levado ao absurdo e as falas e os recursos cênicos instauram um regime de visibilidade que remete aos estudos de Michel Foucault sobre o panoptismo, algumas décadas depois.

Eduardo Guerreiro Brito Losso – Jorge de Lima e Theodor Adorno

Não farei uma leitura de Jorge de Lima a partir do filósofo Adorno. Talvez o contrário fosse interessante, por ser provocativo, mas também não é o caso, antes, pretendo colocar frente a frente a incondicional dedicação à arte de cada um. Ambos fizeram uma extensa leitura de sua época conturbada, mobilizaram todos os seus conhecimentos para a produção de grandes livros e, em especial, deram dignidade essencial à experiência infantil como base da busca da felicidade, um na poesia, outro na filosofia. Para os dois,  o que se tenta realizar em vida não é outra coisa senão alcançar o que foi atingido na infância. A partir desse ponto, podemos diferenciar o ateísmo de Adorno, que não deixa de conter uma teologia negativa, e o catolicismo de Jorge de Lima.